A mulher não é troféu do homem

Quem nota a coisificação da mulher por parte de alguns homens psicologicamente imaturos não pode, à luz da Psicanálise, deixar de indignar-se.
O homem que age dessa forma é como uma “criança grande”: um adulto cujas estruturas emocionais e morais se estagnaram na infância: tudo e todos existem apenas para satisfazer suas vontades e inflar o seu ego. A coisificação acontece quando a mulher deixa de ser vista como um sujeito pleno – com história, inteligência, sentimentos, dores, sonhos etc. – e é reduzida a um bem de consumo, um adorno social ou até mesmo uma propriedade. Esse triste processo de desumanização se manifesta em etapas muito claras na rotina do homem imaturo.
Com efeito, para a “criança grande”, a relação não é uma ponte de conexão real, mas um álbum de figurinhas. A mulher é capturada e exibida na roda de amigos ou nas redes sociais como quem ostenta um carro novo ou um brinquedo caro. Esse homem expõe, às vezes, detalhes íntimos dela, violando o espaço do privado para arrancar aplausos e validação de terceiros.
Como todo objeto, a mulher coisificada corre o risco de ser descartada assim que deixa de cumprir sua função de agradar ou quando decide ter voz própria ou ir embora. A criança mimada com aparência de homem não suporta ouvir o “não”, tampouco aceita perder o controle sobre o seu “objeto”. Incapaz de processar a rejeição de forma adulta, o egoísta ativa uma rede de mentiras e manobras defensivas para proteger a sua autoimagem frágil. Passa a espalhar que “conhece mulheres muito mais bonitas”, que “nem a queria de verdade”, que a relação “foi um erro” etc. Chega a arquitetar o silêncio e o desprezo de forma calculada, não por superação, mas com a intenção deliberada de fazê-la sentir-se diminuída e insegura.
Ora, esse comportamento revela uma carência profunda e uma incapacidade crônica de amar. O homem que coisifica a mulher é movido por um eros completamente desordenado – um desejo primitivo de posse, de consumo imediato e de gratificação do próprio eu. Ele não sabe o que é proteger, respeitar ou nutrir um sentimento verdadeiro, porque o amor autêntico exige renúncia, alteridade e empatia – capacidades que a criança egoísta simplesmente não desenvolveu. Ele quer o benefício da companhia sem o peso da responsabilidade afetiva; quer o prazer da intimidade sem o dever da lealdade e do sigilo.
Superar a cultura do “homem exibidor de troféus” e resgatar a dignidade nas relações exige um enfrentamento direto dessa imaturidade genérica. Algumas mudanças de postura são, pois, indispensáveis: a) Desconstrução da validação masculina de boteco: é preciso que o próprio meio masculino pare de aplaudir e incentivar o homem que expõe a intimidade de uma mulher. Contar detalhes íntimos para buscar aprovação dos pares não é sinal de virilidade; é atestado de fraqueza e pequenez moral; b) Desenvolvimento da responsabilidade afetiva: amadurecer significa entender que a mulher não é um espelho para refletir o nosso ego nem um brinquedo para amenizar nossas frustrações. Entender que o fim de um relacionamento exige postura respeitosa, silêncio digno e preservação da história vivida é o primeiro passo para sair da meninice emocional; e c) Afirmação inegociável da autonomia feminina: as mulheres hão de identificar logo os sinais da coisificação – a exposição excessiva, o ciúme de posse, a necessidade que o parceiro tem de transformá-la em troféu – e recusar esse papel.
Toda mulher tem dignidade inalienável. Quem realmente aprendeu a ser homem por inteiro – e não é apenas uma “criança grande” – a protege e respeita. E mais: exige também que os demais homens ajam do mesmo modo que ele. Se notar o contrário em seus pares, deles se afasta e até os censura. Afinal, o homem de verdade acolhe a mulher; nunca a exibe como mero troféu.
Vanderlei de Lima é graduado em Filosofia (PUC-Campinas) e especialista em Psicologia Criminal Forense (Faculdade Iguaçu-Capanema).
Publicado às 17h13
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